tenho pena que não haja
um senhor
para lhe agradecer o bem
que me sabe
estar bom e em paz
ouvir um vento forte
e lembrar as catedrais
onde entrei
não encontrei o senhor
mas a calma
que reina em seu lugar
2003 - carlos peres feio
algumas coisas revoltam-se ao serem tocadas
e poucos saberão porquê.
revelam na atitude invisível
a agonia em que têm existido
obrigadas ao espectáculo dos humanos
face ao auditório dos inertes,
das pedras semipreciosas, preciosas e simples pedras,
as que amo.
como as compreendo,
incrédulas com este fim de século,
a lembrarem,
a desejarem
voltar aos tempos
antes de a história ser feita,
em que a ordem universal,
a gravidade e o silêncio,
só eram vagamente acordados
pelo passar onírico
de um meteoro.
carlos peres feio
é a que pode apanhar qualquer um
numa bela manhã,
preparando uma fatia de pão saloio
com doce de frutos vermelhos, escuros e doces,
que nos atiram para trás, para o odor da meninice,
da adolescência,
que meninice e adolescência são frutas da mesma árvore,
e doces.
é a que nos persegue todas as manhãs da vida, digo,
todo o caminho,
como um míssil, daqueles que apontados ao alvo em voo
não mais o largam,
pois farejam a fonte de calor,
que nas guerras sobre golfos são tubos incandescentes,
vomitando gases da combustão do jp4,
e que na nossa vida toda
também farejam a fonte de calor, que é sempre o coração
e raramente o cérebro.
1997 - carlos peres feio
fui informado
de que o mundo real não existia
stop
só existem imagens na tua cabeça
daquilo que o mundo é
em sonho
fiquei surpreendido
e despedi-me
definitivamente
da realidade.
2000 - carlos peres feio