
o meu olhar chama-se Pentax
a minha mão lápis
meu cérebro Vax
a minha imagem Osíris
a minha mente
Cinema
todo o mundo Movies
toda a gente Sixties
pelas imagens
podem crer
viveremos para sempre
1988 - carlos peres feio
o que paira no ar
o que não se adivinha
vontade de colar lábios
a lábios
a face
a pescoço.
a bruma, fábrica de mistério.
as coxas
a mão curva
o olhar turvo
mármore de monumento
branco
sem aviso iluminado
tontura
raio
excitação.
1995 - carlos peres feio

todas as noites
quero remendar a minha vida
e a onda resultante é uma fortaleza
ritmo frenético onde um solista
tem seu tempo de brilho
e vontade
de fundir reciclar remendar
esta noite
com um astro próximo
brilhante e ameaçador
qual gás de explosão terrorista
esta noite
vai redimir todas as noites
em que quis remendar a minha vida
e o resultado foi
próximo de zero
esta noite
será o sótão arrumado
(esperou dez anos para que dessem por ele)
é, tenho a certeza, a noite da reconciliação
a noite em que encontro o bálsamo
para continuar e extrair
a raiz do que magoa
e aspirar os cantos da memória
e endireitar livros tombados
sobre as personagens inventadas
é nesta noite que as verdades por fim descansam
exaustas sobre as mentiras
inteiras de uma vida
2001 - carlos peres feio

The Block, 1971, Romare Bearden
nasce em portugal e por aqui gravita.
apercebe-te tarde de mais que o ar
está rarefeito.
coloca-te, peça A,
no espaço B,
um país europeu dito
da linha da frente.
olha para trás,
para o teu passado, e encolhe os ombros.
verifica que B é igual
ao país onde nasceste.
verifica os neurónios
e faz um auto-teste:
onde eras mais feliz?
na terrinha,
ou em paris?
entristece,
renasce em portugal
e aprende a ser diferente.
cumpriste a missão,
e aprendeste
a respirar finalmente!
2001 - carlos peres feio