
Quero arrebatar a marca
estou em posição de fazer pena ao próprio júri
Que os tristes assistentes
só de lerem a nomeação se desfaçam
em lágrimas
O cinzento
exterior
ajudou muito
Assim quero
agradecer a quem me apoiou
na obtenção deste galardão
Não agradeço a familiares
pois só me deram
alegrias
Quero dar uma
palavra esta sim
de agradecimento
ao que se passa lá fora
de horrível
Ajudou
Mas quero sobretudo agradecer-te a ti
Sem ti este prémio
seria como a minha vida
sem sentido
Sem o teu contributo
de rejeição
não estaria neste pódio
E foi com suprema tristeza
que me coloquei
a este nível
para subir alto
e de lá me atirar
para o abismo
2004 - carlos peres feio

deu-se agora mas já se pressentia.
o sol, laranja às vezes,
amarelo fogo despertou,
e estava com pouca atenção,
lá em cima.
foi preciso
a lua,
pálida, direi até insignificante,
atravessar-se para criar o facto novo,
o olhar novo para o sol,
agora com precauções,
filtros, barreiras,
reflexões.
e tudo voltou ao mesmo.
deu-se agora, mas já se pressente
o próximo,
em 2090.
sorry,
não vou cá estar.
1999 - carlos peres feio

porque estou condenado a ver pássaros voar
tenho asas mas não as sinto
são os pássaros no seu voo que mas cortam
e disso
nem sequer se apercebem
vejo o que quero
mas fora do alcance
e é no preciso momento
em que perco a visão
com os olhos rasos de água
2004 - carlos peres feio

Deus nunca viu a Terra
do ar
porque não há Deus
e porque coube ao homem
inventar a máquina
o Profeta teve de subir toda uma montanha
para fazer crer que fora iluminado
e trazia novas
esse visionário viveu num tempo
de máquinas simples
mas teve a ideia complicada
de falar em nome de um Deus
que nunca existiu
o Profeta, Deus e eu
- de notar que eu existo -
mesmo em equipa
e trabalhando muito
nunca conseguiríamos explicar
porque olho para baixo
e vejo novelos brancos
sem fim
que julgo saber serem água
numa forma bela
de pairar
e mais abaixo ainda
os verdes e castanhos da Terra
desta minha terra
povoada por profetas
e sem Deus
2002 - carlos peres feio