
Mário Botas, As quatro estações
espanto
é conhecer
que um dia
haverá um momento
único
na terra:
o último que se lembrava
de nós
morreu
momento a que chamamos
o nosso encontro
com o cosmos
1998 - carlos peres feio

Cosmin Bumbut ©
nascer com a sina de ter sangue frio
é tarefa para que muitos se treinam
sem chegarem a nascer
sente-se o deslizar
da pele a roçar as ervas
em economia de sons
e requintes de movimento
começa a fazer sentido
o sangue o som e a viagem
saudemos o fim da tarde
provoquemos os bem comportados
para que de nós se digam
cobras e lagartos
2001 - carlos peres feio

Vieira da Silva>
os sons indispensáveis
à minha bússola
orientam dia e noite
melodias e palavras
no limite
ouço um órgão em catedral
o humano está
nas vozes do coro
os cheiros
pairam em desafio
tão diferentes como sândalo
alfazema ou o teu corpo
no bosque dos aromas
recolhem para novo ciclo
as cores simples frequências
por si só já nos cativam
aprisionadas em linhas
contam a história do mundo
sê para alguém
uma linha envolvente
do seu som sua cor
seu odor
carlos peres feio - 2004

Rodin
comigo
o ano 2001 descia a avenida
da liberdade
os murmúrios intensos
a recusa
de ficar na rotunda do tempo
descíamos os dois com uma visão armada
de tesouras para limpar
as folhagens do sentimento
retive-me ao ver que este ano
ia ficando para trás
espantado por ser eu tão veloz
tudo estremeceu com as imagens registadas
e pairou a ameaça
de agora
ser tempo de câmara escura
carlos peres feio - 2001

Joseph Albers
É de minha vontade que o destino me comande
e que o meu abandono a essa lei
seja entendido
como um sinal para me concentrar no que toda a vida deveria ter
privilegiado
Mas assim não foi
Que passe o resto da minha vida
neste subtil martírio de ir escrevendo e percorrendo os caminhos de uma aprendizagem
tardia
com o remorso de não estar já num estado mais avançado de aproximação
à verdade
E que sejam as máquinas a forçar a minha natureza e a impelirem-me
para o que já adivinhava desde sempre
Esta ladainha em forma de prece
é um requiem pelo século que deixamos
e pelo desperdício de metade dele roçando a arte sem a tocar
Lanço um grito rouco que só eu ouço
para que no além o destino me atenda
e me faça gastar os restantes dias
com preocupação maior
por quem amo
pelas artes
Só fiel tenho sido ao destino
pois nunca me deixou ficar mal
nem com mais força posso crer em qualquer outra coisa
1999 - carlos peres feio