maio 30, 2004

espanto


Mário Botas, As quatro estações


espanto
é conhecer
que um dia
haverá um momento
único
na terra:
o último que se lembrava
de nós
morreu

momento a que chamamos
o nosso encontro
com o cosmos



1998 - carlos peres feio

Publicado por psm em 09:13 PM | Comentários (17)

maio 29, 2004

homenagem aos répteis

Cosmin Bumbut.jpg
Cosmin Bumbut ©


nascer com a sina de ter sangue frio
é tarefa para que muitos se treinam
sem chegarem a nascer

sente-se o deslizar
da pele a roçar as ervas
em economia de sons
e requintes de movimento

começa a fazer sentido
o sangue o som e a viagem

saudemos o fim da tarde
provoquemos os bem comportados
para que de nós se digam
cobras e lagartos

2001 - carlos peres feio

Publicado por psm em 12:21 AM | Comentários (11)

maio 23, 2004

sons cheiros visões

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Vieira da Silva


os sons indispensáveis
à minha bússola
orientam dia e noite
melodias e palavras

no limite
ouço um órgão em catedral
o humano está
nas vozes do coro

os cheiros
pairam em desafio
tão diferentes como sândalo
alfazema ou o teu corpo
no bosque dos aromas
recolhem para novo ciclo

as cores simples frequências
por si só já nos cativam
aprisionadas em linhas
contam a história do mundo

sê para alguém
uma linha envolvente
do seu som sua cor
seu odor


carlos peres feio - 2004

Publicado por psm em 11:40 AM | Comentários (17)

maio 14, 2004

comigo


Rodin


comigo
o ano 2001 descia a avenida
da liberdade

os murmúrios intensos
a recusa
de ficar na rotunda do tempo

descíamos os dois com uma visão armada
de tesouras para limpar
as folhagens do sentimento

retive-me ao ver que este ano
ia ficando para trás
espantado por ser eu tão veloz

tudo estremeceu com as imagens registadas
e pairou a ameaça
de agora
ser tempo de câmara escura



carlos peres feio - 2001

Publicado por psm em 10:39 AM | Comentários (14)

maio 06, 2004

Ao destino

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Joseph Albers

É de minha vontade que o destino me comande
e que o meu abandono a essa lei
seja entendido
como um sinal para me concentrar no que toda a vida deveria ter
privilegiado

Mas assim não foi

Que passe o resto da minha vida
neste subtil martírio de ir escrevendo e percorrendo os caminhos de uma aprendizagem
tardia
com o remorso de não estar já num estado mais avançado de aproximação
à verdade

E que sejam as máquinas a forçar a minha natureza e a impelirem-me
para o que já adivinhava desde sempre

Esta ladainha em forma de prece
é um requiem pelo século que deixamos
e pelo desperdício de metade dele roçando a arte sem a tocar

Lanço um grito rouco que só eu ouço
para que no além o destino me atenda
e me faça gastar os restantes dias
com preocupação maior
por quem amo
pelas artes

Só fiel tenho sido ao destino
pois nunca me deixou ficar mal
nem com mais força posso crer em qualquer outra coisa


1999 - carlos peres feio


Publicado por psm em 12:04 AM | Comentários (9)