
Rodin
quer mesmo com muita força
um homem que deve ser forte
ele deve ser o sol
ela deve ser o norte.
quer com a força do vento
por vezes a quem não deve
será como ir para o deserto
com os hábitos da neve.
1984 - carlos peres feio

um solo de violino,
acordes de Beethoven
lembranças de Nyman
e odores de mulher
a calma de bosque
um castelo ao longe
abandono de dois seres,
um a outro.
sejas quem fores
mata-me agora ou nunca
– em beleza se deve morrer –
desafio-te a que me fulmines,
ou a que te rendas para sempre.
êxtase –
sei agora o teu código.
1994 - carlos peres feio

Balla - Velocitá astrata - 1913
retive as lágrimas,
invertendo programas em curso
fiz-te caber inteira na minha ogiva,
arriscando passageiros em viagem
nada correu como antes
senti
que emitias energia positiva
peça nuclear,
acolhi-te como és - virtual.
2002 - carlos peres feio

Tapiès
que incêndio vai na tua cabeça!
o crepitar desse fogo
sentem-no alguns.
quero ajudar-te na detecção do perigo
garantir meios para o anulares
não fiques em combustão eterna
com tua carga térmica de gigante.
há que compartimentar com selagens
montar uma barreira corta-fogo
para que entres em lume brando
protegendo as tuas fronteiras
e possas por fim
arder de amor.
2000 - carlos peres feio

Debe Hale
para a escrita não basta
a caneta
o papel pode ser
obrigatório
mas mais necessário
é o lugar de criação
no momento fatal
o som certo
nem sempre música
uma esfera envolvente não identificada
então, o tremor interno
e a poesia
sai-te da mão
1999 - carlos peres feio

Van Gogh
conto a história
do pintor de paisagens
apanhado por um tornado
quando viu o rosto
e os olhos ternos
da mulher da sua vida
esqueceu as belas artes
mudou o perfil de artista
e na incrível transformação
tornou-se um pintor fantasma
sentiu-se câmara com tripé
encontrou a necessidade da filosofia
e não mais deixou de pensar nela
2004 - carlos peres feio