
Lívio de Morais - Mulheres da Ilha de Moçambique
todos os dias perco palmares
mares quentes
vistas sobre águas
gentes
todas as noites sonho
com a África de menino
na praia das Chocas
no calor
dessa mesma noite
em que decidi
que preferia
a recordação
à vida
2004 - carlos peres feio

escrevo o último poema possível
tudo o que vos mostrar no futuro
será a mentira piedosa
para acreditarem também
em dias de desespero
2004 - carlos peres feio

não quero ser do vosso universo
prefiro ouvir dentro de mim
não acreditar em mais nada
convencido que o fim é hoje
(não terá sido já há muito?)
recuso trazer mais nomes
objectos, ideias, pessoas
para esta nave em queda
2004 - carlos peres feio

Richard Lindner
estremeceu e parou
sentiu uma luz forte em cima
ouviu perguntar
lembras-te dela?
deviam estar a gozar
queriam o seu embaraço
por certo
cego pela luz
atordoado pela questão
disse
se me lembro?
e há algum minuto sem a ver
dentro da minha cabeça?
sua pele prometia sempre
seus olhos eram risadas
com o choro em fundo
seu corpo em geral
uma mistura de fêmea desejo e cor
seu andar
dramático ao afastar-se
ondulante à vinda
se me lembro?
sufocou, tudo andou à roda
e caiu, fulminado.
2001 - carlos peres feio

foto de Laurie Turner
já nem aos escombros ligo
desprezo o que flutua em meu redor
ignoro se alguém me salvou
não me lembro do desastre
alguém me procurou?
se bastasse uma canção, a quem a dedicaria?
e sem porquê
continuo
flutuo
1991 - carlos peres feio

Dança de Mágoas, segundo poema de Fernando Pessoa e música de Raul Ferrão
a mensagem
parecia estranha
para quem
a não esperasse
estranha seria
para um incrédulo
eu sabia
que chegariam
explicações
esperadas
desejadas
necessárias
fundamentais
esta era de Vincent, o pintor
que de cores viveu
e de cores morreu
lamentava ter usado
o carvão sobre papel
alguém soubera
mostrar o cinzento da vida
o preto da solidão
sobre o branco de Lisboa
o branco, o cinzento, o preto,
é Pessoa
1997 - carlos peres feio

Jamie Drouin
a raiva apareceu desta vez
com pulseiras
agitou-as no brilho e no som
sem pudor
vomitou argumentos
magnéticos
pisou mágoa e desespero
com desprezo
o resultado
é mais este
crucificado.
2001 - carlos peres feio

saber a poesia viva
na noite dos cegos poetas
carentes da lanterna
que ilumina
marcham penosamente
para salvar a alma
sonhando ver
escrito nas pegadas
SOPHIA
1999 - carlos peres feio