agosto 30, 2005

Ficção 03 (continuação)

Ficção 03 (continuação) 2005.08.29

Lisboa é uma cidade curiosa, para quem nela sente que vive, mesmo que na prática durma habitualmente na Amadora ou em Paço de Arcos: sentimos que lhe pertencemos. Sabemos que sempre teve fama de ser suja, que só a meio do século 19 adoptou um sistema de esgotos. Continua suja e descuidada. E depois? Temos pena, mas deixamos de gostar dela? Não, e não podemos passar dois dias sem a percorrermos.

Percorre-la como agora o fazia José, de automóvel, gera imagens em rápida sequência, com a impossibilidade de as fixarmos, mas ao mesmo tempo criando a grande ideia que temos da cidade. Estes voos rasantes, ainda que com as rodas no chão, dão-nos algo intermédio entre a vista aérea e a consulta de uma planta da cidade, recolhida no balcão do Turismo da Praça dos Restauradores.

Posso falar da cidade em que nasci, horas seguidas! – disse José, em voz alta, quase se assustando com a voz saída do meio dos pensamentos!

E de seguida, pensou: Tem de ser. É altura de fazer acontecer algo - era altura de percorrer a cidade mais uma vez, e esquecer quem amara demais!

(continua)

Publicado por psm em 11:56 AM | Comentários (2)

Dar cor à vida

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foto de cpfeio - Peniche - artesanato

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agosto 27, 2005

Ficção 02 (continuação)

Com uma despedida formal, sem emoção, saía para um ar limpo que por essas avenidas ainda se respirava na época.

Virava para a zona do cinema Quarteto, onde invariavelmente deixava o automóvel, um velho e fraco Porsche primitivo, dos anos quarenta, comprado em segunda mão, com uns dinheiros apurados nos primeiros projectos feitos.
Estudara primeiro pintura, depois arquitectura, sem ter terminado o curso. Mas a sua razoável experiência como desenhador permitia-lhe ser chamado de Senhor Arquitecto. Quem lhe assinava oficialmente os projectos era um amigo, o “Ginginha” Martins, esse oficial encartado!

Já rolava embalado pelo trabalhar característico do motor volkswagen, neste caso em roupagem desportiva, e lembrava a juventude passada na área da Escola, o Chiado, onde era mais importante a convivência de café que as lições entre as paredes de Belas Artes.
Como estava tudo para trás, numa época em que parecia que a vida seria eterna, sem grandes mudanças, e envelhecer era para os outros !

Esta mistura de ideias, o seu falhado casamento, o caldo aconchegante da presença dos amigos, as indecisões na escolha de uma profissão e o clima que se respirava no Chiado, deveriam ser esmagadoras, mas não.
Olhava para trás, para o que ele considerava cerca de metade da vida e pensava: como vai ser o resto? Respondia a si próprio – Vai ser pior!

(continua)

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agosto 25, 2005

Ficção

José M. Duarte teve uma infância que segundo amigos durou mais do que é normal. Alguns acreditavam que com vinte anos ainda reagia como um puto de quinze, e na opinião da ex-mulher, emitida quando se divorciaram, tinha ele já trinta e seis anos, o casamento tinha falhado pela imaturidade.

Nessa época ele defendia a tese de que a vida devia ser vivida como se o ambiente dessa Lisboa dos anos setenta fosse um pano de fundo “estilo Paris Match”, com o encanto que sempre tinha achado nas fotografias desfocadas tiradas por repórteres de acção sem tempo para focar a objectiva.

Num café que ainda hoje existe na avenida de Roma, a Suprema, três dos mais fiéis amigos, aturavam pacientemente seus discursos feitos sob o signo do ponto da situação, longas tiradas onde a esperança de uma vida interessante, morava sempre para lá da fronteira, e Espanha não contava. Espanha servia para fornecer caramelos de pinhão, e permitir que a duzentos e cinquenta quilómetros de Lisboa já se pudesse entrar numa loja para comprar roupa italiana, a preço que servia à classe média portuguesa.


01 (continua)

Publicado por psm em 01:11 AM | Comentários (2)

agosto 22, 2005

recusa

não quero ser do vosso universo
prefiro ouvir músicas dentro de mim
e não acreditar que existe algo mais
convencido que o fim é hoje
e também já foi há muito
recuso trazer mais nomes
ou objectos ou ideias
ou pessoas para esta nave em queda
escrevo o poema último e possível
tudo o que vos mostrar no futuro
é mentira para acreditarem
também em dias de desespero.

março 2002 carcavelos

Publicado por psm em 11:48 PM | Comentários (4)

agosto 15, 2005

Digital

houve um tempo
em que a escrita
ela só
gerava as imagens
delicadamente impressas
em células cinzentas
e por aí ficavam

noutro estamos
cérebro adormecido
aguardando o que virá
onde as imagens
são digitais.


c peres feio - Carcavelos - 04.08.2005

Publicado por psm em 11:10 PM | Comentários (6)