
sou contra termos abandonado
a tinta permanente
a falta que a cor sépia faz
o abandono da arte superior
chamada caligrafia
sou contra as ideias que surgem nas pontas dos dedos
quando tocam em teclados
que ordenam a correntes fracas
que imprimam a facilidade
serei sempre contra o que nos transformou
a ideia que tenho de mim
contra o que de mim esperava
ainda contra o ter esperança
quando esta partiu
por isso olho ondas e sóis mergulhantes
contra um mar que reconheço
lamentando a maré cheia de desespero
cúmplice de tudo o que não aconteceu
quando me faço ao mar da contradição
não há céu risonho que trave esta cruzada
ou armada de luzes brilhantes
capaz de abortar o projecto
sou mesmo contra
assim navego para o escuro
levando em contentores os medos gigantes
sem nunca os soltar
vejo no mistério envolvente um sinal
de estar na rota certa para a condenação
os sonhos que à pressa embarcaram vieram a tempo
do naufrágio garantido pela previsão
sou contra levar na cabeça melodias de voltar para trás
agentes subversivos que escapam ao controlo
clandestinos na minha cabeça
transportando a droga do prazer
em restos de seringas
picando a vontade de respirar ainda
contra meu sentir passam imagens a estibordo
dos locais que longe amei
das coisas-animais-de-companhia
e a bombordo este país onde o contrário do programado aconteceu
só posso ser contra as portas fechadas e tudo o que foi difícil
desse lado passa também o apego à terra pessoas e animais
agora num pacote de amor-ódio
transportando o que queima
exalando vapores rutilantes azuis sem classificação
veneno esperado para cumprir este ritual
sou contra a ideia esgotada
o fosso aberto
o juízo final.
carlos peres feio
carcavelos - 26 de Outubro de 2005
quero reduzir-te a uma imagem
condensar-te
não permitir cópias
filtrar sinais
ouve
avança
ilumina-te na noite
coloca o breu no escuro
dá de ti o que não tens
mostra o que há para ver
o sonho impõe
sai de ti
mexe com o que te rodeia
perfuma-te
à entrada do bosque
alterna-te contigo
consome a vida num todo
e sê para sempre
no teu estar e no teu modo.
porto, 1990 - carlos peres feio
(carcavelos – revisão de 2005)

coisas revoltas
algumas coisas revoltam-se ao serem tocadas
e poucos saberão porquê.
revelam na atitude invisível
a agonia em que têm existido
obrigadas ao espectáculo dos humanos
face ao auditório dos inertes,
das pedras semipreciosas, preciosas e simples pedras,
as que amo.
como as compreendo,
incrédulas com este fim de século,
a lembrarem,
a desejarem
voltar aos tempos
antes de a história ser feita,
em que a ordem universal,
a gravidade e o silêncio,
só eram vagamente acordados
pelo passar onírico
de um meteoro.
carlos peres feio
tudo foi dito.
tudo.
resta somar mais este choro
a tantos.
este atestado à crueldade
na velha, na média,
na nova idade.
vamos a canis
salvar da morte animais,
e apunhalamos
mulheres e crianças.
terá a humanidade um fim feliz?
julgamos aprender,
mas os lobos
em nós
são mais fortes.
a Castro é também uma adaga
no coração do mundo
para os crentes,
oremos.
para os outros,
sangremos.
carlos peres feio
Carcavelos 06.10.2005
(dedicado a minha neta Inês, com esperança – que sejam as palavras dos escritores, o alerta para ajudar a transformar o mundo para melhor – que o século de Inês Guilherme Feio seja o que gostaríamos tivesse sido o XX )