
A Quinta das lágrimas - Coimbra
Naquele dia o Mondego estava de uma rara beleza, em particular naquela margem esquerda que sempre foi desprezada durante a longa noite Faiscante.
Podia-se ver ao longe, na alameda que serve de acesso à Quinta, uma sequência de vultos que pela pouca luz do nascer do sol mais lembrava um enorme cordão, com as vibrações próprias de pessoas friorentas, mal agasalhadas e nervosas.
Na traseira da longa fila, um recém-chegado inquiria para os que já lá estavam:
- Sempre é aqui? Nem quis acreditar que muitos de nós, desfavorecidos, íamos ter uma oportunidade!
Tinha falado um homem baixo, com um casaco que tinha mais de manga que ele de braço, e uma cara de alguém esperançoso.
Respondeu-lhe uma mulher mais velha, de grandes olheiras, mas com um ar rijo de pessoa determinada:
- Amigo, é certo que pode ser este o sítio ideal para nos próximos tempos ganhares a vida. Mas agradece à União Europeia!
- Como assim, esta hipótese de trabalho para desempregados não é iniciativa dos proprietários da Quinta da Lágrimas? Não são eles que vão criar e manter 500 postos de trabalho, daqui para a frente? – retorquiu o homem baixo.
- Olha olha! Se não tem sido a União Europeia a obrigá-los a terem lágrimas verdadeiras, recém recolhidas, para alimentarem o sistema de bombagem da Fonte principal da Quinta das Lágrimas, para poderem ter a unidade Hoteleira aberta com essa designação, não havia este trabalhinho que tanto jeito dá!
(e continuou a velha mulher) - E tem cuidado, ontem foram rejeitados alguns dadores, por ter sido detectado que embora miseráveis, eram “pobretes-mas-alegretes” e essa característica, já se sabe, por mais desgraçado que seja o individuo, não o deixa chorar como seria de esperar ! – por isso, tem cuidado!
(conto com 297 palavras, inspirado na leitura no Boletim de Informações, Nº 6746 de 16 de Setembro de 2005 onde referiam uma Sociedade para o Desenvolvimento do Programa Polis – Coimbrapolis SA)
Carlos Peres Feio Linda-a-Velha
Nota breve – Quem escreve, deve ensaiar novos esquemas – nada como publicitar na WWW e receber as críticas construtivas de quem o entenda fazer – sem complexos, publicarei dois ou três contos, como que “à consignação” – eventualmente divirtam-se!
c peres feio

O Estado Maior da Armada
O Capitão-de-Mar-e-Guerra-e-Intervalo-Entre-Guerras estava no seu gabinete perfumando o lenço, quando entrou o seu assistente, Capitão-Tenente-Ex-Sargento-Cozinheiro, e lhe disse:
- Excelência, trago notícias frescas de uma decisão governamental, que nos vai obrigar a rever a estratégia que tínhamos para nos mantermos como uma força naval importante, nesta Europa que tem dificuldade em nos reconhecer como Marinha-de-Ex-Senhores-dos Mares-e-Rios!
- O estuário do Tejo vai ser vazado para limpeza, aproveitando o Governo para apanhar moedas caídas à água perto das margens, prevendo-se maior acumulação de metal em Belém, Terreiro do Paço e Cova do Vapor.
- Consta que a última apanha de moedas ocorreu durante o terramoto do século XVIII , nos vinte minutos entre o recuo das águas e a vinda das fortes vagas que tudo inundaram.
- Porque somos então afectados por esta limpeza? (que mais do que uma medida de conservação, dizem ser um acto que irá encher os cofres e assim diminuir o famoso défice). Porque a nossa frota de 4 Chatas e 8 Gaivotas, vai ter de sair e recolher em Valência, e a nossa força de 3 Submarinos-Afundados, ficará exposta no seu aparcamento no leito do Rio no Cais do Jardim do Tabaco – teremos assim oportunidade de escovarmos os Submarinos-Afundados, abrindo-os ao público para curtas visitas, se conseguirmos retirar a areia-de-fundo-de-rio que os enche!
O Capitão-de-Mar-e-Guerra-e-Intervalo-Entre-Guerras franziu o sobrolho, e disse:
- Nosso Capitão-Tenente-Ex-Sargento-Cozinheiro, entendi o que me acaba de comunicar, e como prémio da sua competência e interesse pela Marinha, vou deixar que possa cheirar o lenço que acabo de perfumar – e digo-lhe mais: o Nosso Capitão-Tenente-Ex-Sargento-Cozinheiro é aqui no Estado Maior, dos oficiais que diz menos disparates! Estou-lhe grato por isso.
(conto com 287 palavras, inspirado na leitura no Boletim de Informações, Nº 6746 de 16 de Setembro de 2005)
Carlos Peres Feio Linda-a-Velha

foto de c peres feio - arquivo
MEU FOGO
no deserto dos pensamentos
encontro na sombra
areias em movimento
sem fuga possível
procuro o azul luminoso
com rochas salgadas
mas tudo me foge
o mergulho é profundo
cumpro o destino
de me imolar pelo fogo
que em mim arde
TEU FOGO
que incêndio vai na tua cabeça!
o crepitar desse fogo
sentem-no alguns
quero ajudar-te na detecção desses perigos
garantir meios para os anulares
não fiques em combustão eterna
com a tua carga térmica de gigante
há que compartimentar com selagens
montar uma barreira corta-fogo
para que entres em lume brando
protegendo as tuas fronteiras
e possas por fim
arder de amor
carlos peres feio – carcavelos – 2005

Padre Manuel Bernardes – textos contidos na História e Antologia da Literatura Portuguesa (Século XVII) caderno Nº 33 – Fund. Calouste Gulbenkian
excerto:
Do certo Religioso Leigo
Um Religioso grave, de certa Ordem, sendo exaltado à dignidade Cardinalícia, com esta ocasião se entregou ao regalo; e, caminhando um dia com um Leigo simples da mesma Ordem, este ia falando consigo. Perguntou-lhe o Cardeal que murmurava? Respondeu: Vou cuidando que, quando morrermos, havemos de ser apresentados no Tribunal de Cristo, assistindo-lhe N. S. Patriarca. Perguntar-me-á quem sou; direi que Religioso de sua Ordem. Replicará: Abram-lhe o estômago, que eu verei se é assim; e, achando só ervas, que eu como, dirá que sou seu Religioso. Mas, quando vós, senhor Cardeal, vierdes ao mesmo exame, não vos achará senão perdizes e capões, e dirá: Não te conheço; mentes; tu não és meu Frade.

Almada - desenho de c peres feio - 1984
recordações de 1960 e tal…
conheci Almada, no Teatro Experimental de cascais, nos anos sessenta – Almada era cenógrafo, e eu assistia a ensaios de meu irmão (Antonio Feio) na peça O Mar, creio que de Torga. Impressionante era o seu olhar (alucinado?) através daqueles olhos enormes…não esquecerei jamais estes encontros silenciosos, com um “olá!” pelo meio.
recordações de 1980 e tal…
quando fui empresário com uma fábrica de “fibra de vidro” em Albarraque, aluguei durante 4 anos um escritório na R. da Assunção, para ter endereço de Lisboa – por essa altura, li algures que Fernando Pessoa teria trabalhado também num escritório nessa rua, uns números abaixo, pois na baixa Pombalina colaborou em várias firmas…
nos fins de tarde na solidão desse escritório, quase ouvia os passos do Fernando na escada para o quarto andar…
O livro do Desassossego esteve na minha cabeceira uns anos…
(um obrigado a Helena Monteiro, que no seu http://alicerces.blogspot.com/ me lembrou estes momentos)
carlos peres feio
o que paira no ar
o que não se adivinha
vontade de colar lábios
a lábios
a face
a pescoço.
bruma, fábrica de mistério.
coxas
mão curva
olhar turvo
mármore de monumento
branco
sem aviso iluminado
tontura
raio
excitação.
1995 - carlos peres feio - revisão de 2005