quando me cortaram a carne
tive que me reinventar
então, porquê o mesmo?
volto mas sou outro
deixei pouco para trás
tenho tanto em frente
é desta vez
saberei arrumar gavetas vitais
bom vai ser
começar do fundo
o jogo será
ter esperança sem futuro
arquivar o que foi feito
mostrar a escrita em falta
palavras soltas no vento
testamento sem herdeiros
peres feio
carcavelos – junqueiro – maio 2006-05-21
a uma desconhecida
vejo-te como estrela
que viaja no espaço
na noite dos tempos
será atracção
saber tua existência
conhecer tua luz
receber confidências
beber tua música
desenhar teu rosto
não nos tocámos
mas tua força
alterou meu rumo
gravito agora à tua volta
és estrela nova
desconhecida
no firmamento
sigo-te
quem sabe um dia
eu possa entrar
em rota de colisão
1999 - carlos peres feio
felicidade da passagem
esse fluxo que atravessa as pedras e o tempo
essa vaga que deixa rasto.
nos momentos solares
nas construções de ausência,
felicidade, esse factor elevado e subtil
por vezes máscara de Veneza,
sempre irreconhecível.
quando temos nossa mão
na sua cintura ,
felicidade,
sem medida sem forma
poderá finalmente ser,
tudo o que já fomos?
c peres feio - Carcavelos - Maio 2006
...que se interessou pelo meu internamento.
A Espora
Parece-te horrível que luxúria e ira
Cortejem a minha velhice;
Quando jovem não me flagelavam assim;
Que mais tenho eu que me esporei até cantar?
W. B. Yeats - Last Poems (tradução de José Agostinho Baptista)
Retrato de Yeats, desenhado por c. peres feio na clínica de
São Cristóvão (Lisboa) em 03.05.2006