na água concentra-se
nosso olhar para o mar
no ar sente-se o passar
de uma folha perdida
na galeria de uma mina
escorre a água que um dia
foi do Índico
falta o ar que preferiu ser livre
no sentir do peso
na pressão da matéria
quando olhamos uma parede de granito
então gritamos:
estamos na Terra.
Carcavelos – dez 2001 c peres feio
em te evitar
sabendo em verdade
ter no negro galáctico
onde sempre brilharás
minha última estação?
em te procurar
acreditando
no espaço infinito
onde uma luz cintila
mesmo antes da visão?
carcavelos Janeiro de 2007 c peres feio
vou descrevê-la como um arbusto
das raízes invisíveis
ao ar que transporta o pólen
que ao longe sopra folhas
sobre o mar
estrutura que não se vê
tem encapsuladas todas as alegrias
e as mortes que nela habitam
porque marcadas em dias aqui inscritos
produzo os passos que me levam para sul
sinto o inevitável das ruas sem saída
sob árvores suplicantes
escolho o sentido que me leva
a colunas de pedra sem idade
padrões de um tempo de domínio
senhoras de terras e solares
e da sobrevivente arraia-miúda
deveria ter escrito nesses tempos
de pele suave e não osso descarnado
no azulejo onde ficou o traço de um pintor
talvez exilado infeliz
em busca de cura
o destino é uma praia onde as ondas são revoltas
no fim da jornada
prosseguir é tropeçar num outro mundo
com comboio sem silvos
sem fumo e sem paisagem
o que resta de verde
é uma luta em que este vencerá um dia
mas ainda está a passar pela agonia
do combate contra o concreto
neste espaço onde correm cães
sentimos a tristeza da condição destruidora
ao fundo a salvação do reencontro
com o azul e branco que nos acolhe
o mar sem dono nosso alimento
única hipótese dos nossos olhos serem poupados
espaço total água ar sal
as neblinas as rochas
hino que se transforma em dor no peito
de tanto o amarmos
este domínio apropriado
da minha morada em paz
carcavelos * carlos peres feio * 2 de Janeiro de 2007
quatro da manhã
mas mesmo quatro
depois de tudo ser posto a zero
sinto o plano o espelho a lâmina
quarto escuro para onde me empurram
vácuo obtido pelo reverso das coisas
gritar no vazio não adianta
vou em frente sem me mexer
vem a sensação de nada fazer
para que o inevitável aconteça
olhos para trás da esperança
para a frente da saudade
passo o testemunho
em última hora
garanto continuidade
tenho a última vontade
do aperto da tua fina mão
fica um voto
uma canção.
Carcavelos 1 de jan de 2007
carlos peres feio