quando noto que fugimos na bruma
somos ciganos da longínqua Turquia
com violinos que nos perseguem
em doces sons de tâmaras.
procuro sempre sonhar contigo, acordado.
quando tenho tua mão em mim
sonho mais fundo.
a tua mão é a entrada para um outro mundo
Carcavelos 1996
carlos peres feio
porque não escrevi versos
quando meus filhos dormiam
no mesmo quarto,
sonos que não se repetem?
olhava-os nas viagens
que suas mentes faziam
em sonhos separados
mas unidos pelo meu olhar
vigilante
mais valioso
porque não me preocupava com as suas respirações
não tinha nada de prática a minha vigília
era pura e lúdica
porque só os olhava
e com tal amor
que me esqueci de escrever estes versos
em devido tempo
embora irreparável, porque do que passou
não há registos
faço fora de prazo esta declaração
de uma saudade grande
de um amor maior.
carlos peres feio – Linda-a-velha 02-01-2006
Nota –Publicarei próximo o meu primeiro livro. Assim quero aqui deixar uma reflexão –
Estes mesmos versos foram publicados neste “psm – podiamsermais” em 2 de Janeiro de 2006.
Reproduzo os comentários que na altura me fizeram, com a garantia que são em parte responsáveis pela continuidade da minha escrita – sempre entendi a transferência da poesia da gaveta para a www como uma etapa que me levaria ao livro – os amigos que comentaram criticaram incentivaram, foram a água da fonte a meio do caminho.
Os amigos que me publicaram também aqui noutros bonitos sítios da www, foram o tónico para eu conseguir terminar a viagem – a publicação do livro, essa é irreversível.
O carinho de quem me conhecia antes, e me incentivou na escrita, somado ao gentil apoio de quem só me conheceu através da www, são a razão de ainda nesta idade manter um projecto de vida que se vai cumprindo.
A minha gratidão vai para todos os que não precisam de ler estas linhas para a sentirem.
Carlos Peres Feio - Carcavelos – 24 de Março de 2007
Comentários em 2006
Betty -
Existem sempre registos na memória de quem recebe amor :)
Beijos, Betty
Wind -
Sem comentários:) beijos
João Cotta Guerra -
Testemunho o amor maior...e há registos...
Um abraço de quem dorme agora no quarto da filha
Alexandre Peres Feio
Obrigado pela declaração, pois com ela veio bela poesia, pois quem foi assim olhado não precisa que mais nada lhe seja dito.
Maria João Oliveira
Penso que os mais belos poemas de amor se "escrevem" com o olhar. E o Carlos já os "escreveu", há muito, ao contemplar os seus filhos a dormir. Parabéns!...
Para si e família, um feliz 2006!
Abraça-o a Maria João
Helena Monteiro -
Este corta a respiração. As interpretações podem ser muitas mas, acima delas, está o que tu és porque eles existem. Belíssimo!
Inês
Lindo texto e uma bela homenagem, mas tal como disse "M", mais bonito o que foi vivido, por ser irrepetível.
Um bj ao tio e aos primos.
Risoleta Pinto Pedro -
Começámos com a pele, depois as mãos, os olhos, finalmente, a voz. Por aí ficámos muito tempo. Falo do modo como amámos os nosso filhos. Só mais tarde, quando os filhos, ou uma parte deles se parte de nós. voltamos a usar as mãos, já não para a pele, sim para o papel, uma outra espécie de pele. São estas as forma de amor e de poesia que vamos aprendendo. Os filhos são os nossos maiores mestres da arte de amar. Com eles aprendemos que o amor existe e é feliz e inocente e abundante e nossa natureza e... reparável. Assim o vejo, assim é a minha vontade, assim está impregnado em tudo o que existe.
Mónica Feio Cotta Guerra
Vieram-me as lágrimas ao olhos... é só o q tenho para dizer...
Bjs da filha q dormia no mesmo quarto...
Soledade Santos
Não escrevias versos porque era o tempo de lhes velar o sono como se a sua infância fosse eterna: a tua «vigília / era pura e lúdica».
Agora é o tempo da memória, da celebração - o tempo de escrever versos. E assim é que está certo. O sentimento de perda... bem, a vida desliza-nos, ora morosa ora célere, entre os dedos. Também isso é certo e justo. Somos humanos.
Um beijo
Cecília
Parabéns, cpf!
Parabéns outra vez, agora pela reparação de um grave 'delito'.
Um afectuoso beijo
Elisabete Miguel
Talvez o mais belo e comovente texto que aqui li. Certeza só tenho uma: a declaração de "um amor maior" jamais é extemporânea.
Parabéns.
M
Irreparável será, mas bonito o que foi vivido em vez de escrito.
quando a vida me dá imagens
sons cores e espaços livres para pensar
sempre que os afectos me rodeiam
envolvem e criam em mim
aquela sensação de carrossel de vertigem
com música de circo em fundo
sinto de outra maneira o que vejo nas fotos desenhos
rios mar velas na espuma galopes no imenso
e a minha alma lisboeta retorna ao Fado
num regresso de ternura
pelas calçadas das décadas em que me perdi
pelas estradas africanas do meu País de então
gravito bem fora de mim
espero a ressaca da overdose
carlos peres feio – Carcavelos – Março 2007
(de c peres feio, Agosto de 1996)
a poesia habita em mim
e eu habito este corpo
e este corpo é finito
comunhão negra multifacetada
inquilinos uns dos outros
mas a poesia é infinita
a América do Sul
podia ser aqui
Pablo, estiveste por cá?
quando e porquê?
o último a chegar
é o que melhor vê!
as formas belas e a música completa
são oxigénio
podia viver ser ar
sem música não.
on the road again
going places were I have been again
Pablo, fazes falta
dita, dá ordens, exalta
a batida, as imagens e o verso certeiro
quem recente muito te louvou
em Itália, foi o teu carteiro
Aguentei até poder
Ainda controlei a mente
Senti as correntes na cabeça
Vendaval eminente
Tudo em vão
Quis conter-me
Conheci o impossível
Já estava tomado - tarde de mais
Aceitei a desordem
Sei-te
Sozinha sem mim
Conheço as arribas e a espuma
Se me esqueces
Morro sem teu afago
Sei de um destino de lágrimas
Não me negues teu rosto - preenche meu abraço
Cala-me com tua boca
Confirma-me teu corpo
Corrige-me
Faz-me pagar as faltas
Rendo-me a ti
Aguentei até poder
Carlos Peres Feio - Março 2007
Alguém sinta a falta dos versos que não escrevo
Na estrada
há momentos de paragem
Chega a hora de reclamar à vida
o que esta já não nos pode dar
Continuo a ver
a Lua dos outros
o Sol das manhãs
as Ondas, Pedras e Rios
com águas límpidas,
que gostava passassem
sob a nossa ponte
Na neblina dos sentimentos
vejo uma luz.
Acreditas que penso
seres tu?
Carlos Peres Feio – Carcavelos - 10 de Março de 2007
sexo
SemprE foi
eXtremamente
cOmplexo
(Carlos Peres Feio Lisboa 2006 - obra erótica, completa)
(em resposta)
É o sexo
Amplo
Amplexo
Sem nexo
Controverso
E criador
Do universo
(bricadeira em comentário publicado, de Risoleta Pinto Pedro – escritora e poeta - 2006)
os nossos olhos
não envelhecem
mesmo a visão mais profunda
vê o mundo sempre igual
talvez com filtros de várias cores
mas por detrás dos olhos
temos sempre 17 anos
quando olhamos um espelho
é certo que aparece um desconhecido
mas a imagem que temos de nós
é a da época da esperança
sem plano definido
porém não somos só olhos
e o coração perdeu temperatura
o estômago não aceita fretes
temos ouvidos selectivos
as pernas escolhem as descidas
os ombros já não se encolhem
carregamos os sobrolhos
e o peito aumentou em capacidade
de amar
pela pélvis ainda moram
sensações antigas
e os pés, de chatos que são
contaminam por vezes o todo
no entanto
temos sempre 17 anos
2004 - carlos peres feio